Carta Aberta: Da Memória à Continuidade
- barbinipericia
- 30 de set. de 2025
- 2 min de leitura
A história que hoje carrego não começou comigo. Muito antes de eu nascer, meu avô, Ezio Barbini, já havia encontrado na arte um caminho de vida. Imigrante vindo de Lucca, ele trouxe consigo não apenas coragem, mas também uma sensibilidade rara para reconhecer o valor das obras e dos artistas. Foi galerista, mecena, e abriu as portas para que a arte se tornasse parte do nosso sangue. Com ele nasceu o primeiro gesto de compromisso da família Barbini com a cultura.
Meu pai, Hélio Barbini, herdou essa chama e a transformou em ciência. Tornou-se Perito Sênior em Arte, dedicando sua vida à busca pela verdade que habita cada tela. Foi com ele que aprendi que a perícia é um ofício que exige tanto a precisão de um técnico quanto a delicadeza de um guardião. Vi meu pai inclinar-se sobre uma obra com o rigor do cientista e a sensibilidade do artista. E entendi cedo que a perícia em arte não é só técnica: é uma forma de preservar a alma de quem criou. Ele me mostrou que não se trata apenas de identificar falsificações ou atestar autenticidades: trata-se de proteger a história, de assegurar que a memória artística de um povo siga íntegra para as próximas gerações.
Em agosto de 2025, meu pai partiu, deixando um vazio profundo. Mas, ao mesmo tempo, deixou um legado que jamais se perde: suas análises, seus relatórios, seu olhar incansável sobre cada obra. Cresci ao seu lado, entre pinceladas observadas sob lupa, craquelês examinados em silêncio, e assinaturas decifradas como se fossem confidências de um artista. Quando ele se foi, compreendi que não poderia permitir que essa história se interrompesse.
Hoje, assumi a função de Perita em Arte e Grafotécnia e a condução do Instituto Barbini. A transição não foi apenas de cargo, foi de identidade. De filha e aprendiz, tornei-me guardiã da verdade que meu pai tanto defendeu e herdeira de uma história que começou com meu avô.
A perícia em arte é, para mim, mais do que profissão: é missão. É unir ciência e sensibilidade, técnica e intuição, razão e memória. É perceber no traço inconsciente de um artista aquilo que nenhum falsário consegue repetir. É ver além do visível.
E é nesse espaço que me encontro. Cada vez que ergo uma lupa sobre uma assinatura ou acendo a luz ultravioleta sobre uma tela, sinto que não estou sozinha. Ao meu lado, carrego a memória de três gerações: o olhar pioneiro de Ezio, a ética e a ciência de Hélio, e agora a minha voz, que transforma memória em continuidade.
O Instituto Barbini segue vivo porque o legado não termina com a partida. Ele se transforma, cresce e encontra novas formas de permanecer. E é exatamente isso que faço hoje: transformar a ausência em força, o luto em ação, a memória em futuro.
A arte é eterna — e a verdade que a sustenta também.
Obrigada, pai, por tanto.

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